“Meu interesse está no futuro. Afinal, é lá que vou passar o resto dos meus dias…”

Essa frase bem que poderia ser minha, mas infelizmente é atribuída a George Bernard Shaw.
Anyway, define muito bem o que penso e como procuro agir.
Não sou muito chegado a reminiscências, nostalgia, essas coisas. Não é sem algum constrangimento, portanto, que aceitei escrever esse texto.
O máximo que me permito em termos de suspiros saudosos é pelos cruzamentos do Valdomiro, pelo andar elegante de área a área do Falcão, pela imposição vitoriosa do Figueroa. Ou do Fernandão. Bah…
Ah, sim, sou colorado e publicitário desde sempre. Nunca me defini por outra profissão. E, claro, nem por outra paixão.
Desde meus tempos de Colégio de Aplicação, naqueles caderninhos de lembrança que as colegas passavam de mão em mão, eu não respondia: Inter. Rock. Publicitário.
Passei por outras experiências (Engenharia Civil, Relações Públicas, Administração de Empresas, Administração Pública) e encerro esta questão: Sou publicitário.
Quando dava aulas na PUC (Planejamento; Administração de Agências;) sempre tentei alargar os limites de nossa profissão, e extrair de cada aluno o máximo em paixão do publicitário potencial que estava ali. Nem todos trabalhariam em agências – eu meio que profetizava que não haveria espaço para todos – mas enaltecia nossa formação ligada a uma visão ampliada de gestão de negócios. Mas eu envaidecidamente sugeria que sempre, para sempre, deveriam se considerar publicitários.
Publicitários convictos de que nossa profissão é sagrada, rica, evolucionista, é uma profissão que muda a realidade da economia, que move empresas, que gera riquezas, que gera empregos, impostos, que cria valor.
Em verdade, talvez seja a publicidade um dos negócios que mais se adaptou a evolução deles mesmos, os negócios, nos últimos 100 anos.
Nos transformamos de um corretor de espaços em um especialista multimídia;
De uma companhia confidente de happy-hours, em um especialista em negócios;
De um artista, a um criador multiplataforma;
De um redator, em um mestre em storytelling;
De um gerador de insights pessoais, em um grande planejamento;
De portadores de gravatas coloridas, a um profissional com visão do mundo;
De um leitor de revistas, a um pesquisador múltiplo;
De um comprador de mídia, a um integrador de conexões;
De um fazedor de peças, em um criador de valor;
De um buscador de prêmios a um gerador de cases;
De uma atividade artesanal e heroica àquela que é a mais estimuladora das atividades, a atividade que multiplica energias e recursos, que transfere força e velocidade à cadeia de valor dos anunciantes.
De uma atividade secundária a um papel estratégico no mundo caótico, hipercompetitivo, multifacetado e multitemporal de hoje.
Aqui, aproveito o espaço do Nenê, sempre gentil conosco, para propor do alto destas pirâmides virtuais:
No pasarán!
Nós, agências, não vamos morrer.
Nunca.
Ou, pelo menos, por enquanto…
Comecei a e21 com 20 anos, há 32 anos atrás. Tive a colaboração de vários sócios que deixaram suas marcas e escreveram capítulos importantes de nossa evolução de sermos efetivos parceiros de nossos clientes.
Profissionais, neste tempo todo? Milhares, talvez. Pessoas que entenderam (ou não) que nossa “Employee Value Proposition” é Gerar Oportunidades Profissionais para quem aqui trabalha. Muitos entenderam, cresceram, se desenvolveram e aqui galgaram posições. Outros, entenderam que o melhor estava fora da agência. É da vida…
Nesses anos todos, ajudamos muitas empresas a crescerem, ganharem posições de mercado, ganharem muito, muito dinheiro.
Ganhamos prêmios, sim, bastante, e daí?
No exercício maluco de sempre tentar focar no futuro, cometemos erros: Em determinado momento, a agência quase virou uma consultoria de negócios – o que hoje é bem moderno, vejam a ironia – mas também acertamos bastante: Apostamos num modelo que denominamos de Multicomunicação – com o foco na integração de todo o branding ao longo da Cadeia de Valor – que na época desprezava a verdade onipresente de que nosso papel era o de criar e veicular.
Isso, hoje em dia, com a fragmentação de mídia, com a atomização da verba do cliente, com a digitalização de tudo, com a lógica de medir, medir, medir, para entregar resultados consistentes, nos deixa à vontade para assumir uma postura consultiva integradora de tecnologias, dados e conteúdo.
E para encarar o futuro olhos nos olhos.
Fácil? Nem um pouco!
Mas, tenho uma filha nadadora. Ela treina, por vezes 10/12 mil metros por dia para tentar baixar décimos de segundo? Fácil?
Tenho uma esposa psicóloga que me acompanha há quase 30 anos nessa luta. Fácil conciliar?
Se tivesse que me definir, sou um curioso, na essência:
Viajo 2 a 3 vezes por ano ao mundo atrás de tendências desse nosso negócio (agora em março, mesmo viajo a Los Angeles para o #Transformation (bom título, não?) que é o encontro das agências americanas). Ao Ojo de Iberoamerica, vou há 8 edições seguidas. 4As Strategy Festival, 2 vezes. No falecido Planning-Ness, 2 vezes, também. Isso tudo entre uma especialização em Franchising e váááários eventos ligados à vendas e operações comerciais.
Viajo atrás de referências, também. Ano passado fui a Memphis e Nashville atrás da essência histórica do Rock. E a Lynchbourg, atrás da essência Jack Daniels.
Viajo o mundo atrás de experiências com vinhos (tenho uma confraria que se reúne aos berros para discutir o tema, há 12 anos).
Viajo nos livros e nos sites.
Viajo toda a semana a São Paulo, onde a e21 atende à BASF, à DOW, à Votorantim Cimentos, ao Banco PAN, à Vignis, à Salton, à Kepler Weber, entre outros clientes de Jobs.
Viajo seguidamente à Santa Catarina, onde atendemos à Brandili, há 15 anos.
Viajo aqui nas estradas pardalizadas gaúchas, onde atendemos à Kildare, à AGCO-Massey, ao CAU/RS, à Instamed, o que consideramos bem poucos clientes, infelizmente. Mas estamos viajando bastante em busca de mais.
Viajo numa palestra legal (assisto a umas 5 ou 6, das boas, por ano).
Viajo nos cerca de 50 livros que leio a cada 12 meses;
Viajo num grande blues de Jimi Hendrix; Viajo em Summertime extraído da alma da Janis Joplin; Viajo melancolicamente em The End, com Jim Morrison mais que sombrio; Viajo em “Are you Lonesome Tonight”, com Elvis e seu absurdo patamar de 2 bilhões de discos vendidos.
Esses quatro – por enquanto – decorarão a nova sede da e21 que inauguraremos esse mês.
Um lugar com a forma de servir de inspiração total para os novos tempos.
É uma sede que mescla a busca da genialidade permanente com a volatilidade de hoje.
Um lugar que transpirará a sabedoria do “e”.
e21.
Estratégia e criatividade.
On e Off.
Passado e Futuro.
Que é onde, aliás, passarei meus próximos dias.

 

Luciano Vignoli é Diretor-Presidente e de Planejamento da e21.