As agências e a vaca sagrada da propaganda

 

 “Se você acha a mudança perigosa, tente a rotina: Isso, sim é brincar com a morte…” (Frase que um belo dia apareceu na minha timeline do Facebook…)

 

NETFLIX. Série: Merlí.

Uma produção catalã, excelente. Se não assistiram, recomendo.

Bem… num de seus episódios, um professor de filosofia nada convencional – o tal Merlí – conta a seguinte história a seus peripatéticos (sim, você vai ter de assistir para entender) alunos:

Um sábio e seu discípulo vagueiam na floresta atrás de experiências de vida. Eis que cai uma chuva do cacete e eles tiritam de frio. Ao longe, o discípulo vê luzinhas bruxuleantes. O mestre, aponta: “Sim, uma casa. Vamos pedir abrigo!” Ao bater à porta daquilo que, em verdade, era um casebre miserável, a família, ainda mais pobre, os acolhe, mas avisa: “Só podemos servir-lhes leite. É o que temos…”  “Serve” – diz o discípulo congelado. O monge serve o líquido quente e pergunta candidamente do que vivem. “Só temos uma vaquinha. Vivemos totalmente dela. Vendemos o seu leite.”  No outro dia o sábio e o discípulo partem antes do amanhecer e retomam o seu caminho. Mas antes, surpreendentemente, o mestre rola a vaca por um precipício estrebuchando-a toda em pedaços inchurrascáveis…  E lá vai o mestre, estrada afora, tranquilo. O discípulo, novamente congelado, faminto e, agora, com uma puta dor de consciência, o segue em silêncio. Constrangido, mas em silêncio. Culpado, mas em silêncio. Querendo matar o mestre (Que sujeitinho cruel e mal-agradecido!), mas em silêncio. Anos mais tarde, o ex-discípulo caminha pela mesma floresta e vê – no lugar do casebre – uma casa nova, limpa, bonita, com frutas, flores e horta. Bateu e foi recebido pela mesma família, mas agora rescendendo a prosperidade. Ele pergunta, então: “O que aconteceu a vocês?”- Pois queria muito entender a mudança.

“Pois é… lembra daquela noite. A chuva. O abrigo. O leite. Pois então, bem no dia em que vocês se foram, nossa vaca despencou-se toda morro abaixo. Se espatifou. Não deu nem para aproveitar o couro…  Sofremos muito no início. Quase nos desesperamos. Mas depois, resolvemos, então, trabalhar. E descobrimos em nossa família novas habilidades que nem sabíamos que tínhamos! Mudamos! Fomos em frente! Prosperamos!”

Como era linda nossa vaca

Uma campanha, um filme, muita mídia, produção. E lá vinha o leite (condensado).

Dessa teta, mamamos anos.

Criamos lendas, reputações, festivais, carreiras, prêmios, jantares e festas inenarráveis. Criamos o arquétipo do publicitário genial. Criamos o arquétipo do publicitário doidão. Criamos agências Madmen com garçons, champanhe, egolatrias, verdadeiras torres de marfim em torno de uma variável – intermediação – em que dávamos de graça a inteligência, a criação (o valor) e ganhávamos pelo “agenciamento”.

Vaca gorda. Nos alimentou por anos…

A vaca e a zona de conforto.

Como era boa a vida. Éramos R-E-L-E-V-A-N-T-E-S. Levávamos técnicas e informação.

Liderávamos workshops com pesquisas que os veículos nos passavam. Organizávamos o orçamento. E anunciávamos. Ah, como anunciávamos… Falávamos com os donos, com os presidentes, com quem mandava. Liderávamos todos os processos de produção. Coordenávamos tudo. Tudo passava por nós. Éramos paparicados pelos veículos. Éramos paparicados pelos fornecedores. Éramos paparicados pelos clientes. Toda a verba passava por nós. E funcionava!!! Como funcionava!!! Grandes marcas foram construídas assim. Grandes agências foram construídas assim. Grandes veículos se sustentaram assim. Grandes fornecedores se mantiveram assim. Era uma vida boa. Vacas gordas. Pra todo mundo. Receita infalível.

A vaca morreu. Na praia.

Então, eis que de repente, quando aparentemente tudo andava bem, os ataques vieram de todas as direções e de todas as formas. Consultorias geram estratégias. Produtoras criam. Gráficas leiautam os catálogos. Softwares automatizam processos. BI toma espaço do pessoal especializado. Milhares de empresas de tecnologia tiram da cartola novos softwares que analisam dados e imprimem gráficos, uns mais coloridinhos que os outros. Menininhos talentosos fazem os banners (e certos!). Os posts. Cards. Qualquer um tenta vender qualquer coisa de qualquer jeito. E, o pior, conseguem. O cliente está perdido, mas não resiste a uma historinha bem contada. E lá se vai a nossa verba, pulverizada numa série de promessas mirabolantes.

Mataram a nossa vaca! O que será de nós?

De onde viemos, ok. E para onde vamos?

Muita gente (sic!) me pergunta: “Pra onde vai nosso negócio?”

Não tenho a menor ideia, respondo. Graças a Deus…

Repito, para clientes e colaboradores, seguidamente, uma frase que, de tão excelente que é evidentemente que não poderia ser minha… Na verdade é do Michael Hammer, superconsultor, palestrante e autor do não menos famoso livro Reengenharia e sua continuação Além da Reengenharia: “O segredo de uma empresa de sucesso não é prever o futuro. Mas sim criar uma capacidade de adaptar-se e vencer de forma positiva a uma realidade volátil que não pode ser prevista.”

Ok.

Mas o que estamos fazendo em verdade – tal e qual uma família desvacada – para mudar um painel que nos ameaça?Fica como tema para um outro artigo específico.

Parte 1 – Artigo em 3 partes.

Luciano Vignoli – Diretor-Presidente da e21 Agência de Multicomunicação